Cidades Inteligentes: luxo ou necessidade?

Muito tem se falado sobre o tema cidades inteligentes, tanto no Brasil como no mundo. Mas, lendo os artigos, notícias e documentos relacionados ao tema, percebo que ainda estamos tratando as tecnologias urbanas como artigo de luxo, ao invés de tratar como solução real para as necessidades reais das cidades e das pessoas que nelas habitam e vão habitar no futuro.

Recentemente, em uma viagem pelo sudeste asiático para palestrar no 4º Fórum Mundial de Internet das Coisas e Cidades Inteligentes, tive a oportunidade de visitar duas cidades de imenso contraste: Singapura e Jacarta, capital da Indonésia. E, para responder à pergunta título deste artigo, vou usar essas duas cidades como exemplo, comparando-as do ponto de vista de Mobilidade.

Singapura é extremamente desenvolvida. Independente da Malásia desde 1965, a cidade-estado se desenvolveu a ponto de se tornar referência em diversas dimensões urbanas, como Saúde, Habitação e Mobilidade. De fato, as coisas funcionam por lá. O transporte é rápido, seguro e não atrasa. É possível, com o MRT (Transporte Rápido de Massa, na sigla em Inglês), atingir praticamente todos os pontos da cidade a um custo acessível para a realidade local.

Ônibus também complementam o trajeto e possuem alta qualidade no quesito conforto e tempo de espera. Como a aquisição de carros é controlada pelo governo (é preciso uma licença para comprar um carro), o trânsito é perceptivelmente equilibrado. Andar à pé também tem se tornado uma boa experiência, na medida em que o governo local está implantando passarelas cobertas pelas calçadas, tornando a caminhada mais agradável numa cidade bastante quente.

Jacarta está no outro extremo. Do ponto de vista de Mobilidade, as coisas não andam muito bem, literalmente. Mover-se pela cidade à pé é difícil pela falta de um ítem básico: calçada. A cidade é extremamente orientada a carros e motos, que preenchem desde as largas avenidas da cidade, até as ruelas pelas quais os motoristas cortam caminho. Mesmo assim, não é incomum demorar horas para se chegar ao destino dentro da própria cidade. MRT? Em construção há pelo menos 4 anos. A previsão é de entregar o sistema em 2019.

Essas duas visitas me fizeram refletir o seguinte: falamos tanto em tecnologias e modelos de cidades sustentáveis para melhorar a qualidade de vida das pessoas e tornar a experiência urbana mais atraente e saudável, mas porque ainda tratamos o tema como luxo? Digo luxo porque aparentemente os governos hesitam em investir dinheiro nessas novas tecnologias por entenderem muitas vezes que é coisa de países ricos, desenvolvidos, e que existem coisas “mais” prioritárias. Mas porque, então, continuar gastando o mesmo dinheiro (ou até mais) retroalimentado um sistema e uma infraestrutura que já não atende a atual população, e vai entrar em colapso quando o número de pessoas aumentar?

É muito fácil perceber, olhando para o caso de Singapura, o quanto a preocupação com a modernização dos sistemas urbanos de fato traz qualidade de vida. Só do ponto de vista de mobilidade, os impactos na vidas das pessoas são tremendos: redução do estresse, dos níveis de poluição sonora e do ar, por exemplo, que certamente eleva o nível de saúde das pessoas e melhora o bem-estar urbano. Não à toa, Singapura está em quinto lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, enquanto a Indonésia ocupa a posição número 113.

Por isso, é preciso ficar cada vez claro para os gestores públicos e para os cidadãos, do mundo todo, que investir em soluções dentro deste grande tópico chamado “Cidades Inteligentes” é necessário antes de ser luxo. Investimentos em soluções que atendam realmente às necessidades das pessoas são cruciais para não atingirmos, a nível global, o ponto de caos urbano das cidades que não colocarem em suas agendas esse tópico, o quanto antes.

Mais ainda: cidades referências no assunto precisam ser vistas apenas como referências. Não basta querer copiar uma solução pronta de outro lugar, sem considerar o contexto e a realidade local das cidades que desejam se tornar inteligentes. É preciso, de maneira sincera, colocar o cidadão no centro dessa transformação, e entender o que de fato o traz mais qualidade de vida. Portanto, utilizar das tecnologias já existentes para ouvir o que uma determinada comunidade precisa para seu bem-estar é ponto de partida nesta transformação.

Minha principal conclusão desse mergulho em Singapura e Jakarta: contrastes de realidade urbana, como entre essas duas cidades, existem e vão existir eternamente. E isso é positivo pois mantém a diversidade de culturas e dinâmicas sociais em um mundo cada vez mais diverso. A importância do contraste nessa discussão sobre cidades inteligentes está, na verdade, em saber como aplicar esse vasto leque de tecnologias urbanas para melhorar efetivamente aquilo que faz mais sentido na cidade em transformação. As necessidades dos cidadãos de Singapura são certamente diferentes das necessidades dos cidadãos de Jacarta

Do discurso à prática: ouça os cidadãos de maneira sistemática e invista em tecnologias que vão resolver as questões locais em primeiro lugar. Essa, no fim, é a grande transformação que essa grande ideia de “cidades inteligentes” pode trazer para a realidade das cidades no mundo todo.